
A chave para mudar o tratamento e a prevenção do câncer de mama em todo o mundo pode estar sendo desenvolvida por especialistas em medicina e tecnologia da informação pernambucanos. Há três meses, profissionais do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (C.E.S.A.R) e do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), trabalham no desenvolvimento de um biossensor capaz de gerar um sinal mensurável para identificar marcadores ativos de câncer cujos métodos atuais de diagnóstico, como a mamografia, não conseguem detectar. Os primeiros testes com a nova tecnologia começam a ser feitos neste mês, no Hospital Barão de Lucena (HBL).
O câncer de mama é o segundo tipo de câncer mais comum e o que mais mata mulheres no Brasil, deixando todo ano um rastro de cerca de 12 mil mortes, contabiliza o Instituto Nacional do Câncer (Inca). Em 2014, estimam-se 2.450 novos casos em Pernambuco, o que representa a maior incidência do Nordeste. A solução para reduzir a mortalidade está ligada ao diagnóstico precoce. Se descoberto cedo, a possibilidade de cura chega a 90%.
O problema é que o tumor pode demorar de 2 a 15 anos após a mutação genética para atingir um nível detectável. E o diagnóstico, muitas vezes é dado por exames invasivos como a biópsia, quando a doença já está grave. No mercado, atualmente, só existe a possibilidade de fazer o mapeamento genético para uma propensão futura a câncer, como fez a atriz norte-americana Angelina Jolie.
A proposta dos pesquisadores pernambucanos é criar uma máquina que possa detectar, em meia hora, se uma pessoa tem células com DNA cancerígeno na mama. Fazendo, para isso, apenas uma coleta simples de sangue.
“Hoje isso só é feito em alguns laboratórios do país, com máquinas milionárias, e demora até um dia para dar o resultado. Queremos fazer um dispositivo que possa ser usado em clínicas, demore meia hora e seja simples, como um teste de glicose”, detalhou o diretor-presidente do C.E.S.A.R, Fábio Silva.
É deles a responsabilidade de usar a robótica para o que hoje é feito por máquinas de metros de comprimento e manejadas por cientistas com treinamento especializado. E transformar isso em um equipamento portátil. “Copiamos uma sequência da fita dupla do DNA que é responsável por desencadear o câncer de mama e prendemos ela aos biossensores. Se a amostra de DNA coletada se ligar a eles, identificamos a alteração”, disse a biomédica e pesquisadora do Lika, Deborah Zanforlin.
Os testes no Barão de Lucena vão ser feitos com pacientes já diagnosticados, pessoas com histórico familiar cangerígeno e também voluntários que não apresentam nenhum sintoma, escolhidos pela equipe médica e gestora do projeto. Cerca de 50 amostras de sangue já foram coletadas. “Isso irá diminuir as filas nos hospitais e a mortalidade”, pontuou a bióloga do Lika Roberta Godone.
Doze profissionais trabalham na criação dos biossensores. O primeiro protótipo ficará pronto no fim de outubro. Em 2015, a ideia é utilizar dois protótipos de forma experimental em grandes hospitais do Recife e do interior do estado.
Matéria de Alice Souza, publicada no Jornal Diário de Pernambuco em 06/08/2014



